PRESENÇA INTERNACIONAL REFORÇA O BRASIL COMO PLATAFORMA ESTRATÉGICA DO

MERCADO DE PESCADOS

O mercado global de pescados vive um momento de transformação estrutural. Com o pescado já representando mais de 50% da proteína animal comercializada no mundo, e com projeções de crescimento contínuo, a cadeia produtiva internacional passa por uma reconfiguração que abre espaço para novos protagonistas. Nesse cenário, a presença de autoridades e representantes internacionais na abertura da feira (Seafood Show Latin America), incluindo países de referência como a Noruega, evidencia um movimento claro: o Brasil deixou de ser apenas um mercado consumidor ou exportador secundário e passou a ser visto como um ponto estratégico nas decisões globais do setor de pescados.
A mudança no eixo produtivo mundial contribui diretamente para esse reposicionamento. Regiões tradicionalmente dominantes, como o Sudeste Asiático — responsável por cerca de 91% da produção de tilápia —, apresentam desaceleração no ritmo de crescimento, criando lacunas de oferta que precisam ser supridas. É nesse contexto que o Brasil ganha relevância, não apenas pela sua capacidade produtiva, mas pelo conjunto de vantagens estruturais que reúne.
Com a maior reserva de água doce do mundo, extensa faixa litorânea e forte base agroindustrial (especialmente na produção de soja e milho para ração), o país reúne condições únicas para expansão da aquicultura. Mais do que potencial, o Brasil apresenta hoje crescimento consistente, com destaque para a tilápia, cujo consumo avança a uma taxa média anual de 10,03%. Além dela, espécies como o tambaqui e o camarão também ampliam sua presença no mercado internacional.
A tilápia, em particular, desempenha papel estratégico nas relações comerciais, especialmente com os Estados Unidos, principal parceiro e destino das exportações brasileiras. Embora o país tenha avançado nas negociações com outros países, o volume e a estabilidade da demanda norte-americana ainda são determinantes para o desempenho do setor. Ao mesmo tempo, a ampliação de acordos e a redução de tarifas têm favorecido a abertura de novos mercados, fortalecendo a inserção internacional do pescado brasileiro.
É fato que o mercado brasileiro é a “bola da vez”. Ao participar da feira internacional Aquasur 2026 no Chile, o Brasil apresentou produtos, equipamentos e soluções para pesca e crustáceos, atraindo empresários de 34 países.
O destaque que o Brasil tem ganhado em feiras internacionais é um indício positivo de interesse, que pode gerar aproximação comercial, acordos futuros e maior integração do país nas cadeias globais.
Os resultados já são visíveis. O cenário projetado para 2026, segundo especialistas, aponta para uma retomada da confiança no setor, com aumento da competitividade e perspectivas de alcançar US$ 600 milhões em movimentação. Esse desempenho não apenas fortalece a balança comercial, mas também gera efeitos positivos ao longo de toda a cadeia produtiva, elevando a remuneração e promovendo maior dinamismo econômico para produtores, indústrias e distribuidores.

O próximo evento de destaque será o lançamento do 8º International Fish Congress & Fish Expo Brasil 2026, marcado para os dias 2 a 4 de setembro, em Foz do Iguaçu. O evento deve reunir representantes de toda a cadeia produtiva do pescado para fomentar negócios, promover a troca de experiências e discutir inovação no setor.
Apesar dos avanços no âmbito internacional, o mercado interno ainda representa um desafio relevante. Embora o Brasil tenha capacidade produtiva suficiente, o consumo doméstico de pescado segue limitado por fatores culturais e econômicos. O produto ainda é percebido como caro e pouco acessível, além de haver uma baixa tradição no preparo nos lares brasileiros. Como resposta, cresce a oferta de produtos congelados e pré-prontos, buscando facilitar o consumo e ampliar o alcance junto à população.
Além disso, o setor enfrenta desafios estruturais, como os custos ao longo da cadeia produtiva e a concorrência com produtos importados, que pressionam o mercado interno. Esse cenário reforça a necessidade de ganhos de eficiência e de maior alinhamento com as exigências do mercado internacional.
Nesse sentido, a inovação tecnológica surge como eixo central para o futuro da aquicultura brasileira. Iniciativas lideradas pela Embrapa apontam para a criação de uma rede de inovação voltada à disseminação de tecnologias e ao aumento da produtividade com sustentabilidade. Entre os sistemas produtivos em desenvolvimento, destacam-se os modelos de baixa demanda hídrica, como os sistemas de recirculação (RAS), considerados fundamentais diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
A estratégia inclui ainda a transferência de tecnologia para produtores por meio de parcerias com instituições como o SENAR e as Emater, promovendo a adoção de soluções adaptadas às diferentes realidades regionais. O foco está não apenas no aumento da produção, mas na redução de impactos ambientais, melhoria sanitária e otimização de custos, aproximando pesquisa e prática no campo.
Diante desse conjunto de fatores, a demanda global crescente, reconfiguração produtiva internacional, vantagens competitivas naturais e avanço tecnológico, o Brasil se posiciona de forma cada vez mais sólida no cenário global. Mais do que acompanhar o crescimento do setor, o país passa a exercer papel ativo na definição de seus rumos, consolidando-se como peça-chave nas negociações globais do pescado.

Por: Valéria Pioto